Sonho de uma noite de verão
Uma quinta-feira não-qualquer: feriado*.
Resolvo ir até o apartamento dele buscar inspiração e detalhes mais precisos para escrever sobre como estão as coisas depois de sua morte*.
Encontro o lugar vazio como era de se esperar para uma manhã de quinta-feira. Mas também é feriado e alguém poderia estar lá, como eu, afinal.
Não tem ninguém lá.
Começo meu relato pelo cômodo transformado em escritório e closet. Começo - batucando no teclado do smartphone - contando sobre as roupas ainda todas em seus lugares, organizadas como ele gostava e só ele sabia fazer. Sigo para o quarto e comento-batuco-escrevo (sinto saudades de papel e lápis - teclado minúsculo maldito) sobre uma finíssima camada de poeira que se deposita sobre os lençóis brancos e ainda desarrumados, preservados como se ele mal tivesse despertado e saído...
Eis que ele adentra pela porta, sorridente e feliz com a surpresa de me encontrar tão cedo. Sorrio também. Era manhã de quinta-feira mas também era feriado, portanto ele estava se exercitando na academia ali do prédio. Escrever sobre sua pós-morte foi apenas uma ideia para um texto, uma crônica...
Sabe como é, "baseado em fatos reais... ou não".
Desavisado da minha visita, não há nada na geladeira pra almoçarmos. Então ele me chama pra uma corrida até a casa de sua mãe*, atrás de uma pizza. Uma corrida, literalmente. Descemos a rua "a milhão" como dois maratonistas, porque ela não mora longe. É minha primeira vez em sua casa, meu primeiro encontro com ela*. Fico imediatamente tímido, como suele ser. A casa é na verdade o térreo de um prédio de apartamentos. O térreo desse prédio de apartamentos mais parece um grande salão de festas. Mas é o apartamento. Na enorme sala, tios e primos agitados, arrumando mesas e cadeiras como num salão de festas. Mas noto que há cozinha e provavelmente outros cômodos. A mãe o recebe com sorrisos e beijos. Magra, alta, loira... um louro tingido, mais pra um forte dourado. Cabelos curtos.
Ela me ignora completamente, não me concedendo mais que uma olhada. Talvez pensando que sou somente um amigo-ajudante qualquer, afinal ele não me apresentou nem como amigo, nem como namorado, nem como ajudante*. Fico de lado enquanto ele parte pra cima da pesada mesa de madeira, arrastando-a com facilidade para alegria dos demais tios e primos, que suavam. Um hércules, esse moço! Eu, irremediavelmente tímido, fico na minha, calado... Até que uma criança, lá pelos seus 10-12 anos (sobrinho?) me pede ajuda para algo que já me esqueci, também ligado à arrumação pra festa. Lembro de estar perto da grande pia da cozinha (mas não eram cômodos separados?) onde grandes quantidades de alface e repolho picado esperavam, lavados, sua vez de cobrir as redondas.
"Pizza de repolho e alface?" - penso - "Pizza esquisita mas... oquei!"
Mas enquanto ajudo o rapazote, a Dona Sonia aparece no salão à minha procura: a Empresa está sem rede e há gerentes trabalhando hoje, feriado. Não há pessoas de rede trabalhando hoje, no feriado. Explico isso, explico que não tenho esse conhecimento. Evito um grosseiro "não é meu trabalho", porque eu nunca seria grosso com a Dona Sonia! Digo-lhe que, no máximo, posso tentar ajudar de alguma forma, sem garantias.
Então chegamos ao castelo. Porque a Empresa se parece com um castelo, no sentido de ter paredes escuras e muitas colunas "gregas" coladas a essas paredes. O arquiteto provavelmente não sabia nada sobre colunas gregas além de que são parecidas a chaves de fenda torx ou hexalobular ou estrela... sei lá o nome. Gerentes se acumulam na garagem conversando animadamente (é feriado e não há rede) e também não me dão a menor bola.
Resolvo subir pelas paredes mesmo. Escalando. Pra chamar alguma atenção.
Não temo porque, bem, eu posso voar e não estarei escalando de verdade, senão sendo impulsionado pra cima pelo meu poder de voo. E assim vou subindo feito um Tom Cruise experiente, fingindo me apoiar nas pequenas ranhuras das paredes escuras e desgastadas, como são as paredes de qualquer bom castelo velho.
Quase no topo, paro um instante para olhar para o céu. O sol à minha esquerda de repente se vê cercado por nuvens que formam uma espécie de túnel ou tornado* no qual o Sol é o olho. Imediatamente entendo: perdi meus poderes. Então me agarro com verdadeira força às colunas e ranhuras, agora com medo de cair. Sem desespero. Só falta um andar e, beeeeeem devagaaaaar*, consigo chegar até a porta de grade de ferro preto onde a Sonia e demais meninas me esperam, destrancando o cadeado.
Desconheço ter arrumado o problema da rede - despertei antes.
No céu, um espetacular amanhecer amarelo e chumbo que vai ficando mais amarelo do que chumbo à medida que as nuvens da chuva da noite se dissipam. Vão adiar o fim do horário de verão em mais um mês. Sexta-feira passada eu sonhei que voava.
E eu sei de onde vieram todas as estrelas (*).
Resolvo ir até o apartamento dele buscar inspiração e detalhes mais precisos para escrever sobre como estão as coisas depois de sua morte*.
Encontro o lugar vazio como era de se esperar para uma manhã de quinta-feira. Mas também é feriado e alguém poderia estar lá, como eu, afinal.
Não tem ninguém lá.
Começo meu relato pelo cômodo transformado em escritório e closet. Começo - batucando no teclado do smartphone - contando sobre as roupas ainda todas em seus lugares, organizadas como ele gostava e só ele sabia fazer. Sigo para o quarto e comento-batuco-escrevo (sinto saudades de papel e lápis - teclado minúsculo maldito) sobre uma finíssima camada de poeira que se deposita sobre os lençóis brancos e ainda desarrumados, preservados como se ele mal tivesse despertado e saído...
Eis que ele adentra pela porta, sorridente e feliz com a surpresa de me encontrar tão cedo. Sorrio também. Era manhã de quinta-feira mas também era feriado, portanto ele estava se exercitando na academia ali do prédio. Escrever sobre sua pós-morte foi apenas uma ideia para um texto, uma crônica...
Sabe como é, "baseado em fatos reais... ou não".
Desavisado da minha visita, não há nada na geladeira pra almoçarmos. Então ele me chama pra uma corrida até a casa de sua mãe*, atrás de uma pizza. Uma corrida, literalmente. Descemos a rua "a milhão" como dois maratonistas, porque ela não mora longe. É minha primeira vez em sua casa, meu primeiro encontro com ela*. Fico imediatamente tímido, como suele ser. A casa é na verdade o térreo de um prédio de apartamentos. O térreo desse prédio de apartamentos mais parece um grande salão de festas. Mas é o apartamento. Na enorme sala, tios e primos agitados, arrumando mesas e cadeiras como num salão de festas. Mas noto que há cozinha e provavelmente outros cômodos. A mãe o recebe com sorrisos e beijos. Magra, alta, loira... um louro tingido, mais pra um forte dourado. Cabelos curtos.
Ela me ignora completamente, não me concedendo mais que uma olhada. Talvez pensando que sou somente um amigo-ajudante qualquer, afinal ele não me apresentou nem como amigo, nem como namorado, nem como ajudante*. Fico de lado enquanto ele parte pra cima da pesada mesa de madeira, arrastando-a com facilidade para alegria dos demais tios e primos, que suavam. Um hércules, esse moço! Eu, irremediavelmente tímido, fico na minha, calado... Até que uma criança, lá pelos seus 10-12 anos (sobrinho?) me pede ajuda para algo que já me esqueci, também ligado à arrumação pra festa. Lembro de estar perto da grande pia da cozinha (mas não eram cômodos separados?) onde grandes quantidades de alface e repolho picado esperavam, lavados, sua vez de cobrir as redondas.
"Pizza de repolho e alface?" - penso - "Pizza esquisita mas... oquei!"
Mas enquanto ajudo o rapazote, a Dona Sonia aparece no salão à minha procura: a Empresa está sem rede e há gerentes trabalhando hoje, feriado. Não há pessoas de rede trabalhando hoje, no feriado. Explico isso, explico que não tenho esse conhecimento. Evito um grosseiro "não é meu trabalho", porque eu nunca seria grosso com a Dona Sonia! Digo-lhe que, no máximo, posso tentar ajudar de alguma forma, sem garantias.
Então chegamos ao castelo. Porque a Empresa se parece com um castelo, no sentido de ter paredes escuras e muitas colunas "gregas" coladas a essas paredes. O arquiteto provavelmente não sabia nada sobre colunas gregas além de que são parecidas a chaves de fenda torx ou hexalobular ou estrela... sei lá o nome. Gerentes se acumulam na garagem conversando animadamente (é feriado e não há rede) e também não me dão a menor bola.
Resolvo subir pelas paredes mesmo. Escalando. Pra chamar alguma atenção.
Não temo porque, bem, eu posso voar e não estarei escalando de verdade, senão sendo impulsionado pra cima pelo meu poder de voo. E assim vou subindo feito um Tom Cruise experiente, fingindo me apoiar nas pequenas ranhuras das paredes escuras e desgastadas, como são as paredes de qualquer bom castelo velho.
Quase no topo, paro um instante para olhar para o céu. O sol à minha esquerda de repente se vê cercado por nuvens que formam uma espécie de túnel ou tornado* no qual o Sol é o olho. Imediatamente entendo: perdi meus poderes. Então me agarro com verdadeira força às colunas e ranhuras, agora com medo de cair. Sem desespero. Só falta um andar e, beeeeeem devagaaaaar*, consigo chegar até a porta de grade de ferro preto onde a Sonia e demais meninas me esperam, destrancando o cadeado.
Desconheço ter arrumado o problema da rede - despertei antes.
No céu, um espetacular amanhecer amarelo e chumbo que vai ficando mais amarelo do que chumbo à medida que as nuvens da chuva da noite se dissipam. Vão adiar o fim do horário de verão em mais um mês. Sexta-feira passada eu sonhei que voava.
E eu sei de onde vieram todas as estrelas (*).
Comentários
Gosto da Paula... e la ficou mais bonita! É raro lembrar meus sonhos....
Beijos
Boas lembranças!
E os sonhos... Ah! Os sonhos...
Abração.
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