São 9h56
Todo conto começa introduzindo o personagem:
“Maria sentiu-se cansada. Pescoço tenso, acordara mais cedo que o habitual.”
O uso do Pretérito Perfeito também é lugar-comum. Separa autores de escrevedores, parece. Meio Schweppes e Coca-Cola. Mas é tudo refrigerante.
“Imaginou-se numa praia por um mês inteiro. Tomaria sol pra me livrar das coxas brancas, mesmo que pelo curto período de duração da melanina. O sal temperando suas ideias.”
Outra dificuldade é evitar a poesia em prosa. Não que esta seja ruim! Somente há que se ter cuidado: misturar estilos é para poucos, poetizar é para menos ainda. Narrativa simples, descritiva, é melhor, para quem começa.
“30 dias não dá. Suas férias estão a meses de vencer e Maria não teria onde ficar. Hotel, pousada, então, sairiam muito caro.
7 dias não dá. De novo, não há férias nem feriados a vista. De novo, falta-lhe o soldo.
2 dias é pouco. Conseguiria, no máximo, bolhas e vermelhidão como resultado.”
Esgotadas as opções, como continuar? Uma reviravolta, uma surpresa. Puxar pela memória alguma experiência, do autor ou de outrem, que se encaixe. Mais difícil: apelar para a imaginação. Ou torcer pela visita da musa Inspiração.
“Seu chefe não veio hoje. Espirrava ontem - ela acha que adoeceu. Sem dinheiro, sem praia, Maria consulta seu calendário à procura de uma brecha. A reunião! Poderia escapar daquela reunião na última hora e meia do seu dia, fingir comparecer mas pegar as suas coisas, o carro, e ir para casa, para um parque, para um clube tomar sol. Dormir. Descansar.”
Um outro personagem sempre acrescenta uma dinâmica. E agora temos certeza do cenário: o trabalho. E do momento: é dia. Não há como tomar sol na madrugada. E somente se o trabalho noturno fosse parte fundamental da narrativa teria a personagem uma atividade assim fora-do-normal. Mas é uma personagem comum, situação ordinária, nenhum sinal que aponte uma surpresa. Caso esta não venha, então é o autor, também, cansado. Ou seria seu propósito, desde sempre e tão somente, refletir esse cansaço? Induzi-lo?
“São 9h37. Maria encara o relógio por 30 minutos. São 9h38.”
Não está mal. Uma nesga de criatividade para substituir a sensação de que a hora não passa. Criatividade ou memória? É breve o momento de uma vida-padrão no qual as ideias são realmente inéditas, criações. Mais comum ter lido, escutado, assistido algo assim em algum tempo. Fosse compositor, essa análise talvez ficasse mais fácil: um computador ou um time de especialistas poderia comparar suas notas com todas as outras já criadas.
“Precisa fazer alguma coisa.”
Precisa bolar alguma coisa.
“O tempo não passa para os que esperam.”
As ideias não surgem para os desprovidos de talento.
“Não há nada.”
Deveria ter terminado há 3 frases atrás. Agora, só uma alternativa: botar o texto de lado e esperar por qualquer acontecimento no decorrer do seu dia, seu mês, que sirva para dar-lhe continuidade.
Comentários
que texto maravilhoso, Edu!!
Tendeu???
Abraço.
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Postar um comentário